sábado, 28 de dezembro de 2019

"Memento" - Mascha Kaléko (tradução)


Da minha própria morte não sinto angústia,
Mas sim daqueles que próximos me são
Como viver quando eles não estão?

Sozinha no nevoeiro apalpo a morte na sua plenitude
E deixo-me nessa bruma entrar.
A dor de ir nem sequer metade é da de ficar.

 Só quem já passou por isso sabe bem;
- E os que já se foram que me possam absolver.
Lembrai-vos: na própria morte, morre-se apenas
Porém à morte dos outros temos de sobreviver.

 
Tradução livre: MariaS



Vor meinem eignen Tod ist mir nicht bang,
Nur vor dem Tode derer, die mir nah sind.
Wie soll ich leben, wenn sie nicht mehr da sind?

Allein im Nebel tast ich todentlang
Und laß mich willig in das Dunkel treiben.
Das Gehen schmerzt nicht halb so wie das Bleiben.

Der weiß es wohl, dem gleiches widerfuhr;
– Und die es trugen, mögen mir vergeben.
Bedenkt: den eignen Tod, den stirbt man nur,
Doch mit dem Tod der andern muß man leben.


(https://www.maschakaleko.com/gedichte/30-memento) e em "Verse für Zeitgenossen"

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Era Frio, Era Berlim


Era Frio,
Era Berlim

E ai de mim,
Fiquei petrificada,
Como a neve gelada:
O vendedor de Bratwurst 
Era ele próprio (ou como se fosse)
O equipamento grelhador.
Senti minha aquela dor
E a garganta seca sentida
Não era Durst 
Não era!
Era angústia adivinhada
Naquela cara gelada
Que não conhece primavera.
E olhei aqueles olhos…
...Como era vago aquele olhar
 Nem sei se de Homem era
Seria boneco de neve? 

Ja... em férias nem tudo é leve
Nem suave como cetim

Era Frio
Foi em Berlim…


MariaS





A mulher, o homem e o galo (Conto)



Era uma vez uma mulher com cara de bruxa à noite e cara de santa, de pau carunchento, durante o dia.

Na sua fase solarenga praticava o bem, achava ela, tornava-se boa ouvinte, vidente até, amiga do seu amigo, crítica e honesta, “eu, hem?!”, mãe tolerante (às vezes), mulher intolerante. Achava-se convincente e com base nesta sua qualidade achava-se uma super vendedora quer de objectos quer de ideias. Achava-se o máximo em empreendedorismo, de pequenas coisas claro está.

A sua vidinha egocêntrica nem ia nem vinha: era. Ela própria não era bonita nem feia: era.

Na sua fase lunar magicava crimes hediondos contra quem quer que fosse: seus colegas de trabalho de tantos e tantos anos, seus amigos e familiares inclusive filhos e marido. Via-se a estripá-los, a arrancar-lhes olhos e tudo o mais horrendo que se possa imaginar. Porquê? Perguntava-se ela na sua fase solarenga.

Sim, porquê? Freud explicará - talvez.

O homem, muito culto do seu corpo praticava os mais diversos desportos caseiros, experimentava tudo, para se sentir em boa forma. Pessoa simples e honesta, muito macho, via na sua mulher uma mulher para a vida. Com ligeiro talento vocal era, contudo, contra as artes, exceptuando as marciais – como é óbvio, principalmente as mais avançadas que pululavam na família. Para ele, estes artistas e amantes da natureza eram uma cambada de preguiçosos, nada mais. Entendia ele que a vida se tocava para a frente não com mariquices, mas sim com trabalho de jeito, fosse ele braçal ou de serviços, o que importava era um trabalho que assegurasse o sustento e como este ocupava muitas horas ao dia e cansava, defendia que se os aspirantes a artistas o praticassem perdiam a mania de ter ideias, de criar. Criar o quê? Perguntava em voz alta. Ele até nada tinha contra a arte, se eles, os criadores, tivessem dinheiro para esses luxos e não andassem sempre com uma mão à frente e outra atrás, a pedinchar, nem que fosse psicologicamente, o dinheiro de quem honesta e arduamente trabalhava e seus impostos pagava. Ele não se deixava cair nessa esparrela, a sua mulher sim, caía sempre e ajudava, era uma benemérita contra a vontade dele. Ele não era burro, não, pois, tinha a certeza que ela ajudava mais do que aquilo que lhe dizia.

Enfim... suspirava ele acomodado.

Ele, com o seu feitio é que está mesmo a pedir que lhe minta, dizia ela. Mentir, não, porque mentirosa não sou, ocultar, corrigia e enfatizava ela. Coisa que me dói o coração fazer, mas se tudo lhe disser fica o caldo entornado, então: danço ao som da música.

Que outra coisa poderei eu fazer?! Alardeava ela, muito certa de outro caminho não haver.

Na capoeira da tia Aninhas existiam muitas galinhas e um galo, como não podia deixar de ser. Dois galos não cantam no mesmo galinheiro. Tal galo era tratado com todo o carinho, pois ia ser doado à paróquia da aldeia, para nos festejos de angariação de fundos ser prémio na quermesse.

Um belo dia, após o jantar bem regadinho, a mulher e o homem pegaram numa discussão violenta, ele porque queria apanhar ar e ir dar uma volta pela aldeia, até porque havia festa, ela que não e porque não, que coisa mais “pobrinha” apanhar ar numa quermesse, seria muito melhor ficarem os dois a ver um belo filme na nova telinha acabada de comprar ou a ouvir música, tudo isso seria mais interessante, argumentava ela numa pose de intelectual. Ele, farto daquela música e perante a casmurrice dela em não querer sair, bateu com a porta. Foi.

Como ele não voltou logo, como ela previra, todo arrependido, ela fantasiou que podia dar uma de Carochinha e de Rapunzel lançando a sua trança torre abaixo para seu príncipe encantado subir.

Porém, oh tristeza, oh desencanto, quem apareceu não foi o príncipe pela bela intumescida imaginado, nem o João Ratão, nem tampouco a madrasta, mas tão só o seu homem e o galo que ele havia, fanfarrão, ganho na quermesse!




MariaS

sábado, 28 de setembro de 2019

Nem que o telefone toque



A campanha está no ar
Como tambores a rufar
É festa, alegria, primazia
De tudo que é bom para dar:
Meias mentiras, verdades meias
Tudo o que é dito são teias
Para apanhar o incauto

E a incauta

Pensa, amigo/a, pensa,
Seja no que fores nauta,
Não te deixes enganar
Pelo brilho das lantejoulas pechisbeque
Que pronto desaparece
Quando a luz se apagar.

Por hoje, só por hoje, esquece
O brilho delas
E cala o som.
Usa por hoje, só por hoje,
Aquilo que tens como dom
Que é o teu próprio pensamento.

Sim, é hoje o momento

De

Nem que o telefone toque
Ficares enrolado em ti
Como se fosses um cobertor
E o mais que seja além de,
Seja alegria ou dor,
A nada darás enfoque.

Por hoje, só por hoje!

Amanhã, sim, amanhã
A tua ilha voltará
A ser mundo
E quão diferente será
Depois desse “apagão”
Profundo?


 MariaS



(Legislativas 2019)
Foto: MariaS



sábado, 24 de agosto de 2019

Dois mundos



Vivo entre dois mundos
O singular e o comum
E o resultado dessa dualidade
É não pertencer a nenhum

Vivo entre dois mundos
O íntimo e o exterior
E o resultado dessa dualidade
É um sentimento de torpor

Vivo entre dois mundos
O de aqui e o de acolá
E o resultado dessa dualidade
É nem ser crente nem pagã

Vivo entre dois mundos
O vetusto e o pueril
E o resultado dessa dualidade
É um êxtase em funil

Vivo entre dois mundos
O aborígene e o estranho
E o resultado dessa dualidade
É um bamboleio tamanho

Vivo entre dois mundos
O de ajudar e ser ajudada
E o resultado dessa dualidade
É uma revolta mitigada

Vivo entre dois mundos
O tenaz e o de desistir
E o resultado dessa dualidade
É um difuso provir

Vivo entre dois mundos
O primeiro e o terceiro
E o resultado dessa dualidade
É questionar, que primeiro?

Vivo entre dois mundos
O d’aqui e o d’além
E o resultado dessa dualidade
É não pertencer a ninguém


MariaS


Foto: MariaS - Estátuas vivas _ Espinho_Portugal

sábado, 17 de agosto de 2019

Medi Terraneo


Mar sangrento plenilúnio
Desromântico, infortúnio
Para os do sol amantes
Que não veraneantes

Mar azul cor do céu
De sepulcro és véu
De embarcados exaustos
De sofrimento faustos

Mar verde-esmeralda
Para alguns a geralda
Rumo a uma liberdade
Plena de impiedade


MariaS




segunda-feira, 29 de abril de 2019

Eu quisera ser


Eu quisera ser
Uma flor, uma rosa, um jardim
Um lugar onde me sentisse bem
Onde pudesse ficar perto de mim.

Eu quisera ser
O céu, as estrelas, o luar,
Quisera me sentir imensa
E tão leve que pudesse voar.

Eu quisera ser
Uma barcaça, as ondas, o mar,
Quisera soltar minhas amarras
E sair a navegar.

Eu quisera ser
Tudo aquilo com que posso sonhar:
Aquela árvore tão alta, aquele pássaro que salta…
…Eu queria me encontrar!



MariaS
Maio de 2000

Manhã de nevoeiro
Foto: MariaS





sexta-feira, 19 de abril de 2019

Mascha kaléko - Rezept/receita

Receita
Expulsa os medos
E o medo dos medos
Para os poucos anos
Há-de ser o suficiente.
O pão no cesto
E o terno no armário.
Não digas meu.
Tudo te é emprestado.
Vive o momento e vê,
Quão pouco precisas.
Instala-te.
E deixa a mala preparada.
É verdade o que falam:
O que é para vir, vem.
Não te oponhas ao sofrimento
Se ele está lá,
Encara-o em silêncio.
Ele é efémero tal qual a felicidade.
Não esperes nada.
E protege bem o teu segredo.
Também o irmão trai,
Trata-se de ti ou dele.
Toma a tua própria sombra
Como tua companheira.
Varre bem a tua sala.
E saúda os teus vizinhos.
Ajeita a tua cerca
E também o sino do portão.
A ferida em ti está desperta
Debaixo do telhado, por enquanto.
Rasga os teus planos. Sê astuto
E te agarra nas maravilhas
Elas já foram há tempos lançadas
No grande plano.
Expulsa os medos
E o medo dos medos.

Rezept
Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.
Für die paar Jahre
Wird wohl alles noch reichen.
Das Brot im Kasten
Und der Anzug im Schrank.
Sage nicht mein.
Es ist dir alles geliehen.
Lebe auf Zeit und sieh,
Wie wenig du brauchst.
Richte dich ein.
Und halte den Koffer bereit.
Es ist wahr, was sie sagen:
Was kommen muß, kommt.
Geh dem Leid nicht entgegen.
Und ist es da,
Sieh ihm still ins Gesicht.
Es ist vergänglich wie Glück.
Erwarte nichts.
Und hüte besorgt dein Geheimnis.
Auch der Bruder verrät,
Geht es um dich oder ihn.
Den eignen Schatten nimm
Zum Weggefährten.
Feg deine Stube wohl.
Und tausche den Gruß mit dem Nachbarn.
Flicke heiter den Zaun
Und auch die Glocke am Tor.
Die Wunde in dir halte wach
Unter dem Dach im Einstweilen.
Zerreiß deine Pläne. Sei klug
Und halte dich an Wunder.
Sie sind lang schon verzeichnet
Im grossen Plan.
Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.

(Fonte:https://escamandro.wordpress.com/2018/06/27/mascha-kaleko-por-valeska-brinkmann/)


terça-feira, 26 de março de 2019

Altar de Fé



Uma cortina que esvoaça
Desde logo espicaça
Um pensamento que não para de girar
E qual pluma é vê-lo voar
Em constante movimento
Mais veloz do que o vento 
E em ziguezague contínuo
Vai saltando ingénuo
Desde o pensamento perspicaz
Ao assaz
Mais difuso
E uso
Todo esse torvelinho
De pensamentos catadupais
Para meditar a vida
Sentida
Seja sobre filhos
Ou sobre pais
Seja sobre amores que já não são
Ou dos que nunca serão
Seja sobre o aquecimento global
E como evitar tal
Seja sobre os netos
E os afectos
Sobre tudo aquilo que têm
E o que não têm
Para viver e aprender
E como é fácil depreender
Também sobre o que gostaríamos
Nunca viessem a ter.
Uma simples cortina a esvoaçar
Ali a pairar no ar 
Consegue sem querer
A folha em branco preencher
Folha que nunca nos larga
E  ainda que parecendo amarga
Ela simplesmente é
O nosso altar de fé!


MariaS