terça-feira, 12 de novembro de 2019

A mulher, o homem e o galo (Conto)



Era uma vez uma mulher com cara de bruxa à noite e cara de santa, de pau carunchento, durante o dia.

Na sua fase solarenga praticava o bem, achava ela, tornava-se boa ouvinte, vidente até, amiga do seu amigo, crítica e honesta, “eu, hem?!”, mãe tolerante (às vezes), mulher intolerante. Achava-se convincente e com base nesta sua qualidade achava-se uma super vendedora quer de objectos quer de ideias. Achava-se o máximo em empreendedorismo, de pequenas coisas claro está.

A sua vidinha egocêntrica nem ia nem vinha: era. Ela própria não era bonita nem feia: era.

Na sua fase lunar magicava crimes hediondos contra quem quer que fosse: seus colegas de trabalho de tantos e tantos anos, seus amigos e familiares inclusive filhos e marido. Via-se a estripá-los, a arrancar-lhes olhos e tudo o mais horrendo que se possa imaginar. Porquê? Perguntava-se ela na sua fase solarenga.

Sim, porquê? Freud explicará - talvez.

O homem, muito culto do seu corpo praticava os mais diversos desportos caseiros, experimentava tudo, para se sentir em boa forma. Pessoa simples e honesta, muito macho, via na sua mulher uma mulher para a vida. Com ligeiro talento vocal era, contudo, contra as artes, exceptuando as marciais – como é óbvio, principalmente as mais avançadas que pululavam na família. Para ele, estes artistas e amantes da natureza eram uma cambada de preguiçosos, nada mais. Entendia ele que a vida se tocava para a frente não com mariquices, mas sim com trabalho de jeito, fosse ele braçal ou de serviços, o que importava era um trabalho que assegurasse o sustento e como este ocupava muitas horas ao dia e cansava, defendia que se os aspirantes a artistas o praticassem perdiam a mania de ter ideias, de criar. Criar o quê? Perguntava em voz alta. Ele até nada tinha contra a arte, se eles, os criadores, tivessem dinheiro para esses luxos e não andassem sempre com uma mão à frente e outra atrás, a pedinchar, nem que fosse psicologicamente, o dinheiro de quem honesta e arduamente trabalhava e seus impostos pagava. Ele não se deixava cair nessa esparrela, a sua mulher sim, caía sempre e ajudava, era uma benemérita contra a vontade dele. Ele não era burro, não, pois, tinha a certeza que ela ajudava mais do que aquilo que lhe dizia.

Enfim... suspirava ele acomodado.

Ele, com o seu feitio é que está mesmo a pedir que lhe minta, dizia ela. Mentir, não, porque mentirosa não sou, ocultar, corrigia e enfatizava ela. Coisa que me dói o coração fazer, mas se tudo lhe disser fica o caldo entornado, então: danço ao som da música.

Que outra coisa poderei eu fazer?! Alardeava ela, muito certa de outro caminho não haver.

Na capoeira da tia Aninhas existiam muitas galinhas e um galo, como não podia deixar de ser. Dois galos não cantam no mesmo galinheiro. Tal galo era tratado com todo o carinho, pois ia ser doado à paróquia da aldeia, para nos festejos de angariação de fundos ser prémio na quermesse.

Um belo dia, após o jantar bem regadinho, a mulher e o homem pegaram numa discussão violenta, ele porque queria apanhar ar e ir dar uma volta pela aldeia, até porque havia festa, ela que não e porque não, que coisa mais “pobrinha” apanhar ar numa quermesse, seria muito melhor ficarem os dois a ver um belo filme na nova telinha acabada de comprar ou a ouvir música, tudo isso seria mais interessante, argumentava ela numa pose de intelectual. Ele, farto daquela música e perante a casmurrice dela em não querer sair, bateu com a porta. Foi.

Como ele não voltou logo, como ela previra, todo arrependido, ela fantasiou que podia dar uma de Carochinha e de Rapunzel lançando a sua trança torre abaixo para seu príncipe encantado subir.

Porém, oh tristeza, oh desencanto, quem apareceu não foi o príncipe pela bela intumescida imaginado, nem o João Ratão, nem tampouco a madrasta, mas tão só o seu homem e o galo que ele havia, fanfarrão, ganho na quermesse!




MariaS

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