Era uma vez uma mulher
com cara de bruxa à noite e cara de santa, de pau carunchento,
durante o dia.
Na sua fase solarenga
praticava o bem, achava ela, tornava-se boa ouvinte, vidente até,
amiga do seu amigo, crítica e honesta, “eu, hem?!”, mãe
tolerante (às vezes), mulher intolerante. Achava-se convincente e
com base nesta sua qualidade achava-se uma super vendedora quer de
objectos quer de ideias. Achava-se o máximo em empreendedorismo, de
pequenas coisas claro está.
A sua vidinha egocêntrica
nem ia nem vinha: era. Ela própria não era bonita nem feia: era.
Na sua fase lunar
magicava crimes hediondos contra quem quer que fosse: seus colegas de
trabalho de tantos e tantos anos, seus amigos e familiares inclusive
filhos e marido. Via-se a estripá-los, a arrancar-lhes olhos e tudo
o mais horrendo que se possa imaginar. Porquê? Perguntava-se ela na
sua fase solarenga.
Sim, porquê? Freud
explicará - talvez.
O homem, muito culto do
seu corpo praticava os mais diversos desportos caseiros,
experimentava tudo, para se sentir em boa forma. Pessoa simples e
honesta, muito macho, via na sua mulher uma mulher para a vida. Com
ligeiro talento vocal era, contudo, contra as artes, exceptuando as
marciais – como é óbvio, principalmente as mais avançadas que
pululavam na família. Para ele, estes artistas e amantes da natureza
eram uma cambada de preguiçosos, nada mais. Entendia ele que a vida
se tocava para a frente não com mariquices, mas sim com trabalho de
jeito, fosse ele braçal ou de serviços, o que importava era um
trabalho que assegurasse o sustento e como este ocupava muitas horas
ao dia e cansava, defendia que se os aspirantes a artistas o
praticassem perdiam a mania de ter ideias, de criar. Criar o quê?
Perguntava em voz alta. Ele até nada tinha contra a arte, se eles,
os criadores, tivessem dinheiro para esses luxos e não andassem
sempre com uma mão à frente e outra atrás, a pedinchar, nem que
fosse psicologicamente, o dinheiro de quem honesta e arduamente
trabalhava e seus impostos pagava. Ele não se deixava cair nessa
esparrela, a sua mulher sim, caía sempre e ajudava, era uma
benemérita contra a vontade dele. Ele não era burro, não, pois,
tinha a certeza que ela ajudava mais do que aquilo que lhe dizia.
Enfim... suspirava ele
acomodado.
Ele, com o seu feitio é
que está mesmo a pedir que lhe minta, dizia ela. Mentir, não,
porque mentirosa não sou, ocultar, corrigia e enfatizava ela. Coisa
que me dói o coração fazer, mas se tudo lhe disser fica o caldo
entornado, então: danço ao som da música.
Que outra coisa poderei
eu fazer?! Alardeava ela, muito certa de outro caminho não haver.
Na capoeira da tia
Aninhas existiam muitas galinhas e um galo, como não podia deixar de
ser. Dois galos não cantam no mesmo galinheiro. Tal galo era tratado
com todo o carinho, pois ia ser doado à paróquia da aldeia, para
nos festejos de angariação de fundos ser prémio na quermesse.
Um belo dia, após o
jantar bem regadinho, a mulher e o homem pegaram numa discussão
violenta, ele porque queria apanhar ar e ir dar uma volta pela
aldeia, até porque havia festa, ela que não e porque não, que
coisa mais “pobrinha” apanhar ar numa quermesse, seria muito
melhor ficarem os dois a ver um belo filme na nova telinha acabada de
comprar ou a ouvir música, tudo isso seria mais interessante,
argumentava ela numa pose de intelectual. Ele, farto daquela música
e perante a casmurrice dela em não querer sair, bateu com a porta.
Foi.
Como ele não voltou
logo, como ela previra, todo arrependido, ela fantasiou que podia dar
uma de Carochinha e de Rapunzel lançando a sua trança torre abaixo
para seu príncipe encantado subir.
Porém, oh tristeza, oh
desencanto, quem apareceu não foi o príncipe pela bela intumescida imaginado,
nem o João Ratão, nem tampouco a madrasta, mas tão só o seu homem
e o galo que ele havia, fanfarrão, ganho na quermesse!
MariaS